handstalk, o conteúdo é acessivel com Vlibras!
BLOG EDUCATIVO

A proposta deste blog é aproximar o público do cotidiano do Núcleo Educativo MIS com uma linguagem fluída e acessível. Cada educador tem liberdade para desenvolver conteúdo abordando suas pesquisas, visitas e atividades. Acompanhe!

Professor
Quadrinhos

Persépolis e a história do Irã contemporâneo

Postado em 13 de março de 2019

Uma loooooooonga história.

O quadrinho Persépolis é uma narrativa autobiográfica de Marjane Satrapi, autora iraniana que acompanhou a revolução popular de 1979 que culminou, entre outras coisas, na derruba do xá (que é a autoridade máxima iraniana), guerra entre Irã e Iraque e a adoção de diversas medidas que introduziram forçosamente elementos do islamismo no cotidiano da população.

Marjane nasceu em 1969 em uma família tradicional iraniana, que era bem progressista politicamente. Sua família sempre acreditou na autonomia das mulheres e incentivava que Marjane estudasse. Ela nasceu alguns anos após a Revolução Branca iraniana (1963), uma revolução feita através do governo que pretendia uma série de transformações sociais, sendo as principais delas na modernização política. Foi nesse momento que as mulheres iranianas tiveram acesso ao voto, por exemplo. Essa modernização veio acompanhada de uma abertura cultural ao Ocidente, o que encontrou crítica em diversos setores da sociedade.

A Revolução Iraniana.

Em 1964, o xá Mohamed Reza Pahlavi percebe que todas as suas medidas não tiveram o resultado esperado, o que significa que o Irã continua um país instável politicamente. Ele resolve, então, exilar o aiatolá Khomeini, que faz discursos cada vez mais inflamados sobre como o governo iraniano é obediente às ordens dos Estados Unidos, além de reprimir a prática do Islã. Exilado, o aiatolá passa a enviar fitas k7 – uma espécie de pen drive que existia na era pré-internet – para diversos lugares do mundo, denunciando a situação no Irã, ou seja, fazendo exatamente a mesma coisa que já fazia antes do exílio.

Esse clima segue agravando-se até que, em 1978, com a morte do filho de Khomeini no Iraque, diversos protestos acontecem em todo o Irã. Em agosto desse mesmo ano, um cinema é incendiado pelo governo e 400 pessoas morrem. Esse incêndio é o estopim para diversas manifestações; a primeira delas já no dia seguinte ao incêndio conta com dez mil pessoas. Os protestos se intensificam e o xá declara lei marcial, que é um tipo de legislação especial que governantes podem declarar quando o clima é especialmente tenso e perigoso em um país. Isso acontece em guerras, por exemplo. Entre as coisas que essa lei proibia estavam os protestos, o que obviamente não foi bem recebido pela população que estava indo às ruas exigir a saída do xá do governo.

Nesse ponto, acontece o que ficou conhecido como Sexta-Feira Negra. Dá para imaginar pelo nome que não foi nada tranquilo. Das 8 mil pessoas que saíram às ruas contra a lei marcial, 4 mil morreram, todas violentamente atacadas pelo exército. Apesar desse episódio trágico, o governo não cai imediatamente como era de se esperar. Os Estados Unidos retiram seu apoio ao xá e nomeiam um primeiro ministro, que, numa tentativa de mostrar boa vontade, permite que o aiatolá Khomeini volte ao Irã. Ele é recebido por 3 milhões de pessoas e aproveita a oportunidade para criticar a intromissão dos países estrangeiros na política iraniana. Parte do exército apoia o aiatolá e também alguns políticos democráticos que eram contrários ao governo. É um período muito conturbado no Irã e o resultado de tudo isso é que o país se autodeclara uma República Islâmica, e todas as suas leis passam a ser submetidas aos escritos do Corão. É aqui que começa a história de Marjane. A autora vem de uma família que apoiava a autonomia das mulheres, estudou em uma escola francesa mista e sua mãe sempre foi contra o uso do véu. No quadrinho, Marjane conta como tentou se adaptar à nova realidade pós-revolução. Hoje a revolução ficou conhecida como Islâmica, mas, como vimos ao longo desse texto, a repressão aos costumes islâmicos foi um dos fatores que fez com que o povo se rebelasse contra um governo autoritário.

Todos os processos históricos são complicados e é muito difícil dizer que alguma coisa é exclusivamente boa ou ruim. Se a revolução realmente libertou o Irã da dominação estrangeira, por outro lado as condições de vida da população laica mudaram muito, e as mulheres também foram muito afetadas, principalmente pela obrigatoriedade do véu, mas não só.

Ser mulher e viver no Irã.

O Irã foi por muito tempo um dos países mais ocidentalizados do Oriente Médio. Essa ocidentalização se deve a uma série de fatores, como vimos ao longo desse texto, sendo a dependência econômica e a imposições de países ocidentais alguns dos principais.

Em 1936, qualquer vestimenta tradicional islâmica foi proibida em lugares públicos naquele país. Isso foi especialmente significativo para mulheres de famílias religiosas tradicionais. Essas mulheres acabaram sendo proibidas de frequentar a escola ou outros lugares onde não poderiam usar o véu. É importante entender que essa proibição nem sempre era uma imposição, muitas vezes as próprias mulheres não queriam se mostrar publicamente sem véu. Imagine que você sempre usou trajes de banho na praia e um dia o governo brasileiro diz que para entrar no mar é necessário tirar toda a roupa. Talvez você mesmo não queira mais nadar. Foi o que aconteceu a muitas mulheres iranianas.

Durante a Revolução (1979), o véu foi usado como um símbolo político antigoverno. Muitas mulheres que não eram religiosas usavam os véus nas ruas como forma de enfrentamento, ainda que não fossem a favor da obrigatoriedade de usar o traje islâmico.

Hoje, no Irã, o véu é obrigatório, além de uma série de regras impostas pelo Corão, o livro sagrado para os muçulmanos. Podemos pensar que o ideal é que nenhum governo invada esse nível de individualidade de cada ser humano, que as pessoas, homens e mulheres, possam escolher livremente suas vestimentas e que essas vestimentas sejam igualmente respeitadas.

Em alguns países europeus, como a França, o véu islâmico é proibido em escolas e outros estabelecimentos públicos. Esses países têm uma grande população imigrante islâmica e a proibição afastou das escolas muitas meninas. Existe grande apoio à proibição do véu em países europeus. 

No Irã, hoje as mulheres são a maioria dos estudantes nas universidades, podem votar e ser eleitas, mais de 80% das meninas são alfabetizadas. Por outro lado, as mulheres não podem andar sem o véu, não podem andar de bicicleta, não podem frequentar estádios de futebol. Em 2018, as iranianas compareceram massivamente aos jogos de sua seleção na Rússia, muitas vezes usando o véu.

 

MAIS LIDAS