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Professor

Abecedário hitchcockiano

Postado em 08 de março de 2019

Inspirado no Abecedário de Gilles Deleuze*, o Educativo MIS fez um texto no mesmo formato revisitando a obra de Alfred Hitchcock a partir da exposição Hitchcock – Bastidores do suspense, que ficou em cartaz entre julho e outubro de 2018 no Museu. Confira abaixo os verbetes:

Alma Reville

Alfred Hitchcock fazia aniversário no dia 13 de agosto e sua esposa, Alma Reville, no dia 14 de agosto. Os dois se conheceram na produção do filme Woman to Woman em 1923. Ela trabalhava como montadora e ele como assistente de direção. Alma foi companheira na vida pessoal e profissional do diretor, não só como continuísta, mas também auxiliando em muitos de seus roteiros.

Bernard Herrmann

O compositor americano produziu diversas trilhas sonoras para filmes e ficou especialmente conhecido por suas parcerias com Alfred Hitchcock. Seu trabalho mais famoso com o diretor foi para o filme Psicose (1960), para o qual escolheu usar apenas instrumentos de cordas durante a famosa cena do assassinato no chuveiro.

Cahiers du Cinéma

As obras Hitchcock sempre foram sucesso comercial, e ele era constantemente apontado como um diretor que estava no caminho oposto ao dos filmes de arte. Um dos fatores decisivos para o ponto de virada foi a edição número 39 de 1954 da revista Cahiers du Cinéma, que apontava a importância e criatividade do diretor. Tal edição abordou integralmente textos sobre a obra de Hitchcock. Entre os pensadores que assinaram os textos, podemos citar Alexandre Astruc, Maurice Shérer (Éric Rohmer), Sylvette Baudrot, André Bazin, Jean Domarchi e François Truffaut.

Downhill (1927)

Mas uma vez, Ivor Novello e Hitchcock realizam uma parceria cinematográfica. Além de atuar, Ivor Novello era autor da peça que inspirou o roteiro do filme. A linguagem utilizada no filme era muito mais próxima do melodrama, afastando-se do tom de suspense que havia sido visto em O inquilino.

Vemos um personagem que sofre as consequências de uma ação que não cometeu. Novamente, Hitchcock joga com a temática da culpa e punição de um personagem inocente. Neste filme, vemos algumas experimentações importantes do diretor, como sobreposições que indicam um estado de loucura do personagem.

Estalagem maldita, A. (1940)

Esse é o último filme de Hitchcock produzido na Inglaterra antes de mudar-se para os Estados Unidos, país onde o diretor alcançaria a fama.

Na trama, uma mocinha irlandesa, Mary, que acaba de perder a mãe, muda-se para a estalagem de seus tios na Inglaterra. Ao chegar, ela descobre que o tio é parte de uma quadrilha de piratas. A trama desenvolve-se a partir do momento em que Mary torna-se alvo da quadrilha. Apesar de o nome remeter a filmes de terror, A estalagem maldita segue a principal característica do diretor, o suspense.

François Truffaut

O cineasta, crítico e um dos nomes fundamentais da Nouvelle Vague, François Truffaut foi diretamente responsável por eternizar a genialidade de Hitchcock, quando, em 1962, realizou uma entrevista de oito dias com Alfred Hitchcock, onde cada filme do diretor inglês seria analisado e debatido. Dessa conversa nasceu o livro Hitchcock/Truffaut: entrevistas, lançado em 1966, um verdadeiro manual para diretores de cinema e cinéfilos de todo o mundo.

Grace Kelly

Grace Patricia Kelly foi uma das atrizes prediletas de Hitchcock. Dos onze filmes de sua carreira, três foram dirigidos por Hitchcock: Disque M para matar (1954), Janela indiscreta (1954) e Ladrão de casaca (1955). Encerrou sua carreira artística em 1956 quando se tornou Princesa de Mônaco, contudo aproximou-se de diversos trabalhos sociais, fundando em 1963 uma associação que atendia crianças carentes.

Hedren, Tippi

Tippi Hedren é uma atriz estadunidense que iniciou sua carreia no cinema após uma aparição em um comercial de televisão. O diretor Alfred Hitchcock se interessou por sua atuação e lhe fez o convite para protagonizar o filme Os pássaros. Por tal trabalho, Hedren recebeu o Globo de Ouro em 1964.

Interlúdio (1946)

Em 1946, Hitchcock lança Interlúdio, filme estrelado por Cary Grant e Ingrid Bergman que conta a história de um agente do governo que chantageia a filha de um nazista, para forçá-la a espionar um agente alemão que mora no Rio de Janeiro. O filme recebeu duas indicações ao Oscar como Melhor Roteiro Original e Melhor Ator coadjuvante.

Janela indiscreta (1954)

Janela indiscreta é apontado por vários estudiosos como o filme que mais consegue reunir características do cinema de Hitchcock. Assistimos à história de Jeff, um fotógrafo que se encontra com a perna engessada e acaba observando seus vizinhos. Uma mulher solitária sem nenhum amante, uma bailarina cobiçada pelos homens, um músico alcoólatra que sofre com uma crise criativa, um casal sem filhos que transfere seu amor para um cachorrinho, e um vendedor que passa ser a suspeito de ter assassinado sua esposa.

No cinema, foi diversas vezes foi apontado por sua forte característica metalinguística. Assim como Jeff, assistimos às cenas de um lugar confortável, compartilhamos com o personagem seu ponto de vista voyeurístico. Apesar disso, enquanto espectadores estamos imobilizados e sem muitas possibilidades de ação diante a trama, assim como o fotógrafo. Tal geometria do espetáculo é análoga ao lugar que ocupamos na sala de cinema. Quase todo o enredo acontece dentro de um apartamento e as possibilidades de pontos de vista são quase as mesmas dos espectadores.

Kulechov, Liev

Kulechov foi um cineasta russo e um grande estudioso de teorias cinematográficas, tendo sido responsável pelo experimento chamado Efeito Kulechov, no qual afirma que a essência do cinema é a montagem, pois a produção de sentido ocorre de acordo com o encadeamento das imagens escolhidas pelo diretor ou editor.

Marido era o culpado, O (1936)

Este filme de 1936 mostra a história de um detetive da Scotland Yard, que investiga uma organização internacional que planeja explodir uma bomba em Londres. O título original, Sabotage, foi renomeado de duas formas no Brasil: a primeira como Sabotagem e a segunda, O marido era o culpado, que foi acusada de contar o final do filme.

Tal caso nos faz lembrar a lenda sobre a adaptação portuguesa do título Psicose para O filho que era a mãe. Entretanto não é verdade que o filme tenha sido traduzido desse modo, mas sim como Psico.

Norman Bates

Norman Bates, protagonista de Piscose, é um dos personagens psicóticos mais conhecidos de todos os tempos. O filme de 1960 foi uma adaptação do livro Psycho do autor Robert Bloch. A inspiração para o personagem veio de um psicopata que realmente existiu. Ed Gein foi um assassino em série e ladrão de lápides que costumava exumar cadáveres do cemitério e criar troféus e outras lembranças com as partes dos corpos.

Oscar

O Oscar é a premiação mais conhecida para os conteúdos cinematográficos. Hitchcock, apesar de ser indicado diversas vezes para o prêmio (Um barco e nove destinos, Quando fala o coração, Janela indiscreta e Psicose), só recebeu a estatueta de melhor filme com Rebecca – A mulher inesquecível. Contudo, nunca recebeu o prêmio por Melhor Direção.

Pássaros, Os (1963)

Nas filmagens, raramente Hitchcock abria espaço para experimentações. Em Os pássaros, no entanto, o diretor diminuiu essa rigidez. O filme não possui música, tendo sido substituído por uma rica atmosfera sonora.

O diretor descobriu que algumas ovelhas estavam sendo atacadas por corvos em local próximo às filmagens e decidiu visitar a fazenda. O cineasta decidiu incorporar a história ao roteiro de seu filme.

Quando fala o coração (1945)

Em 1945, com o objetivo de introduzir a psicanálise em seus filmes, Alfred Hitchcock convidou Salvador Dalí, ícone do movimento surrealista, para criar a cenografia da sequência onírica de Quando fala o coração (Spellbound). Dalí produziu mais de 20 minutos de cenas, sendo que apenas alguns foram aprovados: cenografias esquizofrênicas e estruturas arquitetônicas impossíveis carregaram para o cinema todo o estilo inconfundível do pintor.

Ring, The (1927)

Ao contrário da realização anterior que aborda o crime – tema frequente em suas obras –, esta comédia dramática fala de adultério a partir da história de dois lutadores de boxe que se apaixonam pela mesma garota. Nessa fase dos filmes mudos, Hitchcock procurava utilizar o menor número possível de legendas. Por conta disso, o diretor cria algumas situações inovadoras para a época. Um bom exemplo é uma cena em que vemos uma taça de champanhe sendo cheia, com suas várias borbulhas, e posteriormente vemos a mesma taça sem borbulhas, induzindo o espectador a perceber uma passagem de tempo.

O ringue é um dos raros filmes de Hitchcock no qual o roteiro é inteiramente creditado a ele. Como em todos os filmes da fase muda, o diretor se mostrava mais preocupado com a maneira de contar a história do que com ela em si. Nem por isso deixamos de notar o nascimento de uma grande preocupação com a montagem, como, por exemplo, na cena final de luta de quase 10 minutos, na qual esse recurso é importante para segurar a atenção do espectador.

Sombra de uma dúvida, A (1943)

Hitchcock, apesar de não ver a verossimilhança como um fator fundamental para o cinema, aponta que A sombra de uma dúvida é de fato um de seus filmes que mais se aproxima dela. Este é um filme no qual o vilão é o protagonista, mas, ao mesmo tempo, é o personagem que mais atrai a simpatia do público. Como sugere Truffaut uma análise do filme, isso acontece porque o vilão nunca é visto assassinando as viúvas.

The Pleasure Garden (1925)

Apesar de muitos estudos apontarem que o filme Number Thirteen tenha sido a primeira experiência cinematográfica de Hitchcock, o próprio diretor diz que a experiência foi apenas um exercício, tanto que nunca chegou a ser finalizado.

Hitchcock já havia exercido diversas funções como chefe da seção de letreiros, cenógrafo e montador dentro da indústria cinematográfica antes de assumir a direção do longa-metragem The Pleasure Garden Nesta primeira experiência cinematográfica não conseguimos identificar o estilo hitchcockiano, mas já é possível notar alguns elementos que seriam caros à sua obra

O filme abre com a cena de uma escada, elemento muito presente em diversos de seus filmes. É também constante o uso da câmera subjetiva, como, por exemplo, quando compartilhamos do ponto de observação do monóculo do personagem. Vemos também uma forte influência que o acompanharia em toda a fase muda, o jogo de luz e sombra desenvolvido pelo cinema expressionista alemão. O Daily Express já o definiu nesta primeira direção como “Um jovem com cabeça de mestre”.

Under Capricorn (1949)

Em Sob o signo de capricórnio, Hitchcock desloca o foco do suspense para um tom dramático. Isso não diminuiu o sucesso com o público, uma vez que este acabou sendo um dos maiores sucessos do diretor.

O diretor, que já havia realizado Quando fala o coração e Interlúdio, quis ter novamente Ingrid Bergman, a maior estrela da época, como protagonista desse filme.

Vertigo (1954)

Em O corpo que cai, o detetive John ‘Scotty’ é apresentado como um homem que têm acrofobia (medo de altura). Este é o filme no qual as trucagens técnicas estão mais interligadas com a narrativa. A que ficou mais famosa é a cena de vertigem na escada, na qual a câmera cria essa sensação de tontura, afastando-se com um traveling e um zoom ao mesmo tempo.

X-RATED

X-rated é uma classificação americana que indica a censura para maiores de idade. No Reino Unido, em 1960, o filme Psicose recebeu esta classificação, e somente nos últimos anos que teve a classificação indicativa reduzida para 15 anos.

Zanuck

Em 1961, Zanuck e Walter Wanger chamaram Hitchcock para dirigir o filme Cleópatra após a demissão de Rouben Mamoulian. O mestre do suspense recusou a oferta, pois desejava rodar o filme Os pássaros.

*L'Abécédaire de Gilles Deleuze é um programa de televisão francês produzido por Pierre-André Boutang em 1988-1989, consistindo de uma série de entrevistas de oito horas entre o filósofo Gilles Deleuze e a jornalista Claire Parnet.

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