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BLOG EDUCATIVO

A proposta deste blog é aproximar o público do cotidiano do Núcleo Educativo MIS com uma linguagem fluída e acessível. Cada educador tem liberdade para desenvolver conteúdo abordando suas pesquisas, visitas e atividades. Acompanhe!

Extramuros

Projeto Tribos: Disseminação da Fotografia e o Registro de Mobilizações Sociais.

Postado em 28 de agosto de 2019

Durante o mês de junho, alunos de cinco escolas da rede pública da cidade de Santa Bárbara d’Oeste receberam o projeto Tribos. Tal projeto tem como intuito a mobilização social, realizada na comunidade a partir de ações voluntárias de crianças e adolescentes. O MIS encontra-se neste projeto como um parceiro para a formação fotográfica de crianças, com o objetivo de que as crianças voluntárias possam registrar de forma autônoma tais ações.

Durante o percurso de formação, as crianças tiveram aulas teóricas e práticas. Neste texto, abordaremos como foi o processo dos encontros das seguintes escolas: CIEP Carmelina Pelegrino, CIEP Leonel de M. Brizola, CIEP Charles Keese Dodson, CIEP Therezinha Sbravattie e CIEP Angélica S.Tremocoldi.

Os três dias de atividades foram ministradas pelas professoras de fotografia Natália Tonda e Melissa Szymansky e acompanhados pelo educador Ícaro San Carlo do Museu da Imagem que integra o Núcleo Educativo do MIS. Cada escola recebeu uma oficina de fotografia com duração de três horas, abordando questões teóricas e práticas da fotografia.

Em um primeiro momento, as professoras investigaram a relação que os alunos tinham com a fotografia e o acesso dos mesmos a equipamentos de fotografia. A epistemologia da palavra foi analisada durante as aulas, e foi discutida a importância e as possibilidades da luz no registro de imagens. Alguns exemplos foram apresentados aos alunos, que começaram a fazer leituras de imagens sobre as fotos, apontando o que eles consideravam erros e acertos dos exemplos mostrados.

Como ilustração da importância da luz, as professoras decidiram criar algumas pontes com a invenção da fotografia e seu desenvolvimento.

Apresentaram alguns marcos do desenvolvimento da fotografia, como a invenção da câmera escura e posteriormente a invenção de Joseph Nicéphore Niépce em conseguir fixar imagens, dando origem à primeira fotografia. Os dois exemplos despertaram muito interesse nos alunos, tanto pela possibilidade de ainda produzirem de forma caseira a câmera escura, quanto pela descoberta do que havia sido registrado por Niépce.

O tempo de exposição à luz para o registro das imagens em uma superfície foi o tema de um segundo momento da aula. Tanto a primeira fotografia de um humano de 1838 e a posterior invenção do daguerreótipo foram temas de grande interesse por parte dos alunos. Como os retratos são recorrentes nas vivências dos alunos, os mesmos mostraram-se extremamente interessados nos processos tecnológicos envolvidos. Com a introdução desses exemplos, as crianças perceberam a diferença entre fotografia analógica e digital.

Outros avanços tecnológicos foram abordados durante o processo, como a invenção da câmera de umbigo, do filme fotográfico, das primeiras polaroides até chegar às fotos digitais. Foram apresentadas ilustrações de imagens, e mostradas a título de exemplo algumas câmeras que puderam ser manipuladas pelos alunos. Tal procedimento didático das professoras foi muito assertivo, uma vez que o conteúdo, além de uma abordagem conceitual, teve uma abordagem com a materialidade das câmeras.

Depois do desenvolvimento da fotografia, o conteúdo teve um aprofundamento técnico, de forma que alguns princípios da fotografia foram apresentados, tal como a noção de ISO e de granulação. Exemplos de fotos foram apresentados, mostrando que muitas vezes o resultado depende também da intencionalidade do fotógrafo.

A segunda parte da aula foi prática. Separados em duplas ou trios, os alunos receberam uma venda e uma câmera para cada. A proposta era que cada integrante do grupo registrasse cinco fotos. O aluno vendado deveria ser guiado pelos outros integrantes, que decidiriam o que deveria ser fotografado.

A intenção era que cada aluno pensasse qual seria o tema de sua foto por meio da delimitação de fotos e do olhar. O exercício era um retorno à delimitação do número de fotos do período analógico, e uma atividade de análise de luz e ambiente, na qual todos os resultados eram fruto de uma colaboração coletiva. Os alunos gostaram de realizar a atividade e ficaram bastante curiosos com o resultado, que foi mostrado e analisado pelas professoras na aula posterior.

No segundo encontro, foi mantido o mesmo formato didático de formação dos alunos. Cada oficina teve três horas de duração, contando com apresentação teórica e prática. As crianças já estavam mais próximas das professoras e algumas apontaram que realizaram algumas experiências de fotografia durante o intervalo das aulas.

As fotografias realizadas na primeira aula foram mostradas para os alunos. A intenção era de que eles percebessem, a partir da exibição em uma tela grande, erros e acertos. Eles, por sua parte, foram bastante participativos e gostaram muito de ver aquilo que haviam registrado. 

Como na primeira atividade eles estavam vendados, era claro que existiriam problemas de enquadramento. Neste momento, as professoras comentaram sobre enquadramento para que posteriormente pudessem aplicar no momento da atividade prática.

Na primeira aula, as professoras haviam apresentado a importância do ISO na fotografia, e o segundo encontro teve como proposta apresentar os dois outros pilares desta arte, o obturador e o diafragma.

O obturador, que é o tempo de exposição à luz em relação ao sensor da câmera fotográfica, em um primeiro momento pareceu algo abstrato para os alunos. Mas, à medida que as professoras relembravam as primeiras experiências de câmeras de fotografia e do tempo que cada uma levava para registrar a imagem, o conteúdo ficava mais claro. Exemplos de fotografia em relação a luz e sombra foram utilizados como material pedagógico para que as crianças, por meio de um exercício de observação, pudessem apontar as diferenças em relação às experimentações na fotografia.

Se, no obturador, o que está em jogo é o tempo em que a câmera fica aberta, o diafragma é a quantidade de luz que entra no aparelho. Esse ponto, que traz bastante confusão até mesmo para aqueles que já ingressaram na fotografia, foi em grande parte sanado pela criação de uma relação dele com o conteúdo escolar que os alunos estão estudando. As professoras fizeram um paralelo com as frações para explicar o obturador e trouxeram exemplos de cânones da fotografia para explicar o diafragma. Foram analisadas obras de Man Ray, Robert Bresson, Elliott Erwitt, Koudelka, entre outros.

Ficou perceptível que as análises de tais fotografias e suas representações artísticas acabaram por influenciar o segundo momento da aula, na qual os alunos deveriam registrar algumas imagens. Eles tentaram realizar algumas experiências tomando por base as fotografias que haviam visto na parte teórica da aula.

O momento prático teve início com uma explicação de algumas funções da câmera. Os alunos retiraram o modo automático que foi utilizado na última aula e passaram a utilizar algumas sessões semiautomáticas da câmera, a mudar para função macro e de paisagem nos aparelhos.

Esse novo aprendizado do aparelho teve uma relação direta com a atividade que iriam realizar mais tarde. Divididas em duplas, cada criança teve que fotografar cinco imagens de coisas pequenas (foto detalhe) e cinco coisas grandes (paisagem). Em cada parte do exercício, deveriam selecionar a opção “macro” para detalhe e a opção “infinita” para paisagem.

Durante o exercício, as crianças mostraram-se mais íntimas do equipamento e, por diversas vezes, perguntaram sobre botões e funções específicas da câmera. A maioria já consegue acessar o menu, rever as fotos, selecionar o modo da fotografia e apagar imagens.

No terceiro encontro, as professoras mantiveram o formato de iniciar a aula analisando as fotos retiradas no encontro anterior. O volume de fotos produzidas no segundo encontro foi bem maior que o do primeiro, de forma que as professoras começaram a apontar temáticas que seriam retomadas no momento teórico.

Após a análise das fotos, os alunos tiveram uma apresentação teórica sobre enquadramento. As professoras começaram perguntando qual era a noção de enquadramento dos estudantes, e ficou perceptível que alguns realmente nunca haviam escutado o termo ou pensado sobre o seu significado.

Tais discussões de enquadramento trouxeram explanações sobre termos ainda mais básicos, tais como corte, respiro e luz.

O conteúdo seguiu em direção à discussão da composição fotográfica. As professoras decidiram passar algumas regraspara a harmonia no conteúdo que seria produzido.

A primeira regra apresenta foi a dos terços, apontando como diferentes imagens são pensadas e divididas a partir de tal concepção, sempre com o intuído de apresentar de forma bem definida o foco de atenção dentro de uma imagem.

Explicaram o motivo de existirem as grelhas nas câmeras fotográficas e qual era o uso dessa ferramenta no momento de uma composição fotográfica. Apresentaram, ainda, outras regras, como a noção de “Fibonacci” e de “Golden Ratio”, exemplificando com outras fotografias.

Ainda sobre a composição fotográfica, os alunos foram apresentados às noções de linha, perspectiva, fundo e composição de cor.

O intuído era mostrar como essas noções estão também presentes no momento em que pensamos os planos dentro da fotografia.

Vários planos foram apresentados aos alunos. Começando por plano geral, plano médio, plano americano, plano frontal, plongée, contraplongée, primeiríssimo plano, close up e plano detalhe. Esse estudo dos planos foi exemplificado por uma série de imagens, a partir das quais os alunos passaram a cruzar com as regras apreendidas em um primeiro momento da aula.

Para a parte teórica, os alunos foram divididos em duplas com a seguinte proposta: cada dupla deveria tirar quatro fotos de planos abertos, quatro de planos médios, duas plongée, duas contraplongée e duas fotos de plano detalhe.

Antes de saírem par fotografar, os alunos tiveram que tirar todas as câmeras do modo automático e apreenderam como colocar a grelha para utilizar a regra dos três terços.

No último encontro do mês de junho, o conteúdo abordado foi retrato. A professora iniciou a matéria analisando as fotos feitas na aula anterior. O volume de fotos teve um aumento considerável em relação aos outros encontros, de forma que a proposta didática foi criar uma ponte entre as fotos já registradas e algumas convenções a respeito do retrato.

Os pontos de corte em um retrato, a composição de planos, a composição de cores e o foco foram os principais temas levantados durante a análise. No início, os alunos não conseguiam explanar o que estava “errado” dentro dos retratos, mas, conforme a análise das fotos aconteciam, o conteúdo ficava mais claro. No final, eles conseguiram apontar com facilidade o que poderia ser melhorado nos registros.

Em relação ao conceito de retrato, a professora iniciou a discussão perguntando o que eles entendiam pelo termo. Uma das respostas frequentes era de que retrato tinha relação com desenho. Partindo de tal concepção, a aula voltou para uma discussão a respeito do retrato na pintura e de seu posterior desdobramento na fotografia.

Já no âmbito do retrato, no campo específico na fotografia, os alunos apontavam a atividade de tirar foto de si mesmo como um primeiro entendimento do que era retrato em foto. A professora acabou discutindo o que era selfie e como este também era um modelo de retrato. Posteriormente foram abordadas outras formas de retrato que não tinham relação direta com autorretrato.

Com o intuito de ilustrar o conteúdo duas fotografas, foram apresentadas aos alunos. A primeira foi Cindy Sherman. Os ensaios mostrados da artista foram: Untitled A, B, C, D and E (1975), Untitled Bus Riders (1976) e Untitled Film Still 3 (1977). Posteriormente, foram mostradas fotografias da artista Isabelle Van Zeijl no ensaio I Love Her (2018). Foi interessante perceber como tais ensaios acabaram por influenciar algumas escolhas estéticas por parte dos estudantes, que acabaram por criar uma releitura tanto das poses como dos adereços das artistas.

Na parte prática, cada aluno deveria tirar a foto e também posar para os retratos. Apesar de não ter um número limitado de tentativas, os estudantes deveriam escolher no final do processo apenas quatro retratos cada, já que a proposta era de que realizassem uma curadoria das imagens que produziram.

Por Ícaro San Carlo

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