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Singular/Plural: entrevista com Marcos Piffer

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Post enviado por Ananda Carvalho em 01/09/09 - 18h13m

A série Litoral Norte de Marcos Piffer  está na exposição Singular/Plural: fotografia documental em cartaz no MIS de 08 de setembro a 4 de outubro. Dentro do Projeto Acervo Vivo, a curadoria proposta por Rubens Fernandes Junior escolheu obras dos portfólios selecionados entre 1993 e 1994 para o Prêmio Estímulo de Fotografia, que faz parte do acervo do MIS.





MIS / Ananda Carvalho - Você poderia descrever o processo de realização da série Litoral Norte?

Marcos Piffer - Sou de uma geração de Paulistas que teve sua infância e adolescência intimamente ligada ao Litoral Norte de São Paulo, em uma época que a viagem de carro demorava horas por uma estrada de terra e parte dela pelas praias mesmo. O comércio era insipiente e as praias e matas estavam em parte no seu estado natural. Longe de querer ser saudosista, mas para muitos desta geração o litoral tinha um caráter sacro, de santuário.
Com o asfaltamento da rodovia Rio - Santos, no início dos anos 1980, ocorreu uma ocupação desenfreada e desordenada desta região, e isto detonou em mim uma vontade e disposição de realizar uma extensa documentação dos lugares que para mim eram mais significativos. Comecei a fazer esta documentação em 1989, totalmente por minha conta, e a levei até o ano de 1999. Durante estes dez anos recebi alguns prêmios por este trabalho – Prêmio Estímulo da Secretaria de Estado da Cultura em 1995 (de onde as imagens desta mostra fazem parte) e a Bolsa de Artes da Fundação VITAE em 1996 - que ajudaram financeiramente a levá-lo adiante.

É importante dizer que esta documentação não possui um caráter de registro de representação fiel do espaço. Fotografei somente o que para mim representava um apelo simbólico e estético muito forte. No final deste processo, publiquei um livro com cerca de 80 imagens, que passaram a fazer parte do acervo permanente do MAM em São Paulo.

MIS / Ananda Carvalho - As imagens que estão na exposição Singular/Plural caracterizam-se como fotografia documental. Como você descreveria a sua produção atual em relação a esta temática?

Marcos Piffer - Apesar de ter falado acima que realizei uma “documentação fotográfica” sempre fui muito contra estas definições ou compartimentações. Inclusive hoje temos muitos outros termos esdrúxulos como fotografia contaminada, expandida, contemporânea, etc., criados por críticos ou curadores que necessitam destas definições. Ou então, divide-se os fotógrafos entre foto-jornalistas, retratistas, paisagistas, artistas…
A maneira como entendo ou processo meu trabalho, desde quando comecei a fotografar na década de 1970, foi através de grandes histórias, ensaios ou conjunto de imagens. Isto me faria um fotógrafo documental, um ensaísta, um foto-jornalista? Minha série sobre os trabalhadores do café pelo Brasil é composta por dezenas de retratos. Isto me faria um retratista? Costumo dizer que eu gosto apenas de fotografar, e que as minhas fotografias não têm a intenção de serem representativas da realidade, são “só” fotografias. Elas possuem o tanto de veracidade quanto um desenho ou uma pintura.

Minha produção atual se concentra em três frentes. Uma série de imagens que chamo de “Céu/Mar” que são fotografias quase “abstratas” em cores onde o horizonte divide exatamente o quadro ao meio. Pensei esta série para ser ampliada somente em grandes formatos, e que sempre são expostas sem a identificação do local onde foram realizadas, pois isto é o menos importa. Produzo apenas uma ou duas imagens desta série por ano.

A outra frente é um grande ensaio sobre a Flora da Mata Atlântica, o qual também venho realizando dispersamente há anos, mas agora faço de uma maneira mais sistematizada. Neste, eu procuro tratar cada espécie de planta como uma escultura a ser fotografada. Publicarei um livro no próximo mês com parte deste trabalho, o primeiro que publicarei em cores.

E o terceiro é uma desconstrução de uma cidade, no caso Santos, através de uma série que chamo de “Anti-arquitetura”. São imagens de lugares banais e bem pouco nobres na cidade.

Todos podem ser rotulados como documental. Mas para mim vão muito além disso.

MIS / Ananda Carvalho - Atualmente, há uma grande discussão a respeito da representação fotográfica mediante ao desenvolvimento tecnológico. Como você se posiciona perante este debate? Ou seja, como considerar a fotografia como documento perante as possibilidades de criação digital?

Marcos Piffer - Eu acredito que esta discussão deveria recuar um pouco mais no tempo, e questionar o próprio conceito ou valor de documento com relação à fotografia. Ontem mesmo (30/08/2009) saiu um artigo no Estadão sobre esta questão citando e questionando duas famosas imagens, uma do Robert Capa “O soldado caindo”, e a outra do Joe Rosenthal da bandeira americana sendo hasteada em Iwo Jima, com relação à este aspecto. Podemos adicionar neste imbróglio a clássica “O beijo” do Robert Doisneau, e inúmeras outras. Ou seja, esta discussão vem de longe e vai muito além. O importante é qual o valor atribuir a uma fotografia enquanto um documento.

Eu diria mais, que independentemente do fotógrafo arrumar a cena, ou manipular a imagem posteriormente no computador, o simples ato de escolher uma determinada lente ou ângulo começa a fazer a fotografia deixar de ser isenta. Escolhemos deliberadamente como fazer a fotografia com a intenção de mostrar algo ou não, ou uma sensação ou outra. E num segundo momento, quando editamos as imagens, escolhendo algumas imagens e eliminado outras, reforçamos a intenção de mostrar somente o que nos interessa. Isto deve ser extrapolado para as linhas editoriais dos jornais, revistas, etc. e até aos posicionamentos políticos dos fotógrafos. Ninguém, a meu ver, é cem por cento isento.

Sobre a questão em particular da fotografia digital, devemos considerar que a manipulação das imagens em computadores é bem mais antiga do que a atual popularização das câmeras digitais. Quando criaram o primeiro scanner e as imagens analógicas começaram a ser passadas para dentro do computador elas se tornaram digitais, e com o advento dos programas de correção ou alteração das imagens (não sei quem chegou primeiro se os scanners ou estes programas) teve início este tipo específico de manipulação. Mas voltando novamente no tempo, sabemos de correções que sempre foram realizadas ainda no tempo dos laboratórios fotográficos, desde as mais gritantes como sobreposições de negativos, recortes ou eliminação de personagens, por exemplo; ou mais sutis como leves retoques, ou alteração de tons e contraste.

Leia também a entrevista com Iatã Canabrava

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