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BLOG EDUCATIVO

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Relato do educador

Breve história dos musicais (Parte 1)

Postado em 10 de janeiro de 2020

Breve história dos musicais (Parte 1)

 

Os musicais têm duas raízes importantes: o cinema mudo e o teatro. Nas primeiras investidas do cinema com os Irmãos Lumière, não existia de fato uma estrutura narrativa. As realizações eram acima de tudo um cinema de atração. O que estava em jogo era a nova tecnologia a ser apresentada. Nesse primeiro momento do cinema, diversas vezes as pessoas pagavam o ingresso para ter a experiência de ver algumas imagens em movimento. Os Irmãos Lumière especializaram-se em captar imagens que despertassem a curiosidade, como a de um elefante ou de um vulcão em erupção. Os espectadores, por sua vez, eram atraídos principalmente pelas imagens em movimento de coisas que muitas vezes não se encontravam ao seu alcance em razão da distância geográfica.

Um segundo marco importante aconteceu a partir das investidas de Georges Méliès, que, antes de realizar cinema, era mágico e diretor de teatro. Ele quis comprar a invenção dos Irmãos Lumière, o cinematógrafo, mas estes não o venderam. O mágico então criou seu próprio equipamento capaz de criar imagens em movimento. Mas foi além, interessava ao diretor a capacidade herdada do teatro de contar histórias. Por meio dessa nova tecnologia, seria possível contar, por exemplo, histórias de cientistas chegando à lua e lutando com alienígenas. O cinema deixava de ser simplesmente uma atração, para se tornar uma máquina de contar histórias.

O mais consagrado como um marco da estrutura cinematográfica clássica é David Griffith. Uma de suas principais contribuições foi a de envolver emocionalmente o espectador nas tramas, o olhar do espectador deveria estar encampado pelo viés do protagonista, assim o entendimento da narrativa se tornaria mais claro. As ações, os gestos e os objetos eram didáticos com o espectador. Se o personagem olhava para uma porta, outro plano do lado de fora poderia mostrar alguma ação. Foi Griffith que percebeu que o espectador poderia criar pontes entre esses espaços.

Todas as ações dos filmes tinham pertinência para o que deveria ser contado na história, de forma que nada era feito de forma gratuita. Fatores como a montagem paralela (ações simultâneas ocorrendo paralelamente), a não revelação da câmera, o olhar encampando o ponto de vista do personagem, a plástica da imagem e o ponto de vista moralizante foram consolidados como uma regra para a narrativa hegemônica do cinema.

Tais técnicas empregadas no início do cinema foram muito importantes para o surgimento do cinema sonoro e sua posterior aplicação no cinema musical. A estratégia de envolvimento do público e a nova técnica de sonorização dos filmes foram pensadas como importantes aliadas, e poucas vezes foram rompidas no caso dos musicais. Com o advento do som, o que ficou ressaltada foi  sua contribuição para o envolvimento do espectador na trama.

Um ótimo exemplo é o filme O cantor de jazz (1927), muitas vezes apresentado como o primeiro filme falado. A expressividade imagética, tão importante no teatro e amplamente utilizada pelo cinema mudo, começava a ter seu lugar no cinema falado. O enredo gira em torno de Jack Robin, o único filho de um judeu ortodoxo, que passa por conflitos entre cantar na sinagoga ou cantar jazz. Mesmo o filme ainda utilizando cartelas, ele apresenta, além das canções, falas que são cruciais para a narrativa. A música e as falas são importantes para se criar a aproximação emocional, apresentando desejos e sentimentos do personagem que são compartilhados com o público.

Nos primeiros anos do cinema sonoro, a música sempre era dietética, ou seja, o espectador sempre era apresentado à fonte de onde o som vinha. Por exemplo, se uma canção era introduzida no filme, o espectador poderia perceber que a fonte era do personagem cantando, do rádio ou de alguma apresentação. Sendo assim, em seu início, o musical não era visto como um gênero fechado, já que ele poderia ser encaixado em qualquer outro gênero. Apesar disso, estava inaugurada uma parte essencial para a narrativa clássica do cinema. O seu projeto de verossimilhança com a realidade e, portanto, uma forma de projetar o espectador para a cena, estava ainda mais próxima.

Com o surgimento das novas experiências sonoras, muitas fórmulas foram exploradas e experimentadas até seus limites. Todo tipo de espetáculo que já fazia uso do som tornou-se material para adaptação para o cinema. Com o teatro não foi diferente. A comédia musical, muito explorada pela Broadway, foi amplamente transportada para o cinema. Novas tramas sonoras deveriam ser pensadas para o cinema, já que muitas vezes as fórmulas narrativas do cinema mudo não serviam para o cinema sonoro.

Nessa relação, surge uma primeira crítica a essa nova realização do cinema: muitos espectadores viam os filmes como teatros filmados. Outro fator que contribuía para tal percepção é o de que, como os equipamentos cinematográficos eram bastante barulhentos, eles necessitavam ficar isolados para não atrapalhar o som, de forma que os movimentos da câmera ficavam por muitas vezes mais aprisionados.

Ademais, como bem mostrou o filme Cantando na chuva, vários atores do cinema mudo eram “expressivos demasiadamente” para a nova fórmula do cinema. Em outros casos, além de não saberem cantar, suas vozes não eram aceitas pelos espectadores. Por outro lado, os atores do teatro, além de uma ampla harmonia com as marcações, sabiam cantar, sapatear e técnicas para a voz, elementos importantes para o cinema sonoro e, posteriormente, para o musical.

O gênero musical, principalmente por influência das realizações sonoras, ganhou muita força dentro do cinema norte-americano. A narrativa clássica, principalmente nos anos 1920 e 1930, ganharam impulsos principalmente por um fator histórico. Após o período da grande depressão, as pessoas desejavam fórmulas de escapar aos horrores do momento histórico. O cinema, que nesse período era uma forma de diversão barata (cerca de quinze centavos de dólar), mostrou-se um importante veículo.

Os Estados Unidos estavam explorando a principal potencialidade do cinema hollywoodiano daquele momento, o de criar uma atmosfera otimista diante da situação. Hollywood ajudava a divulgar um estilo de vida otimista americano, e a relação com o cinema de narrativa clássica ajudava a manter a indústria em funcionamento em plena crise.

Por Ícaro San Carlo

 

 

 

 

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