O estrangeiro
Ciclo de Cinema e Psicanálise
13.10
TER
19H
Data
13.10
Horário
19h
Ingresso
Gratuito (retirada com uma hora de antecedência na bilheteria física do MIS)
Local
Auditório MIS (168 lugares)
O Ciclo de Cinema e Psicanálise, programa mensal do MIS, é realizado em parceria com a Folha de S.Paulo e a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). A cada edição, é exibido sempre um filme seguido de um bate-papo, com mediação de Luciana Saddi, coordenadora do Programa de Cinema e Psicanálise da Diretoria de Cultura da SBPSP. O debate é gravado e disponibilizado, posteriormente, no canal oficial do MIS no YouTube.
A edição de outubro exibe, em parceria com a Califórnia Filmes, o longa O estrangeiro, adaptação do clássico homônimo do escritor Albert Camus, publicado originalmente em 1942, e que revisita uma das obras mais emblemáticas da literatura do século 20. Com fotografia em preto e branco, uma narrativa envolvente e uma atmosfera marcada pela tensão, o diretor François Ozon mergulha em temas como a solidão e o absurdo da vida, transformando a obra de Camus em uma experiência cinematográfica que convida o público a refletir sobre o comportamento humano e as consequências de nossas escolhas.
Após a sessão, será realizado um bate-papo com a presença do psicanalista Daniel Delouya e do pesquisador Raphael Araújo, especialista na obra de Camus.
Sobre o filme
O estrangeiro
(L’étranger, dir. François Ozon, 2025, França, 120 min, 12 anos)
Baseado no célebre romance de Albert Camus, o longa acompanha Meursault, um francês indiferente que vive na Argélia dos anos 1930, cujo dia a dia é abalado pela morte da mãe e por um encontro fatal numa praia, levando-o a um julgamento que escrutina tanto o crime como o seu caráter. O filme, em preto e branco e com Benjamin Voisin no papel principal, explora a alienação e o absurdo da existência, e o diretor François Ozon dá uma nova dimensão às personagens femininas e ao contexto colonial francês.
Sobre os convidados
Daniel Delouya é membro efetivo e didata na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), ex-presidente da Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI) e membro do Board da IPA pela América Latina desde 2023. É autor de sete livros sobre psicanálise, sendo o último deles Guerra e psicanálise (Ed. INM, 2025).
Raphael Araújo é graduado e doutor em letras pela USP. Traduziu obras do francês para o português, como O pequeno príncipe, para a editora Universo dos Livros, e os Primeiros cadernos de Albert Camus, para a Hedra. Especialista na obra de Camus, publica artigos acadêmicos no Brasil e no exterior, além de ensaios na imprensa. É autor de A estrela invisível —Albert Camus e o mito de Nêmesis, publicado pela editora 7Letras em 2025, com o resultado de sua pesquisa de doutorado sobre manuscritos do escritor na França. Também escreve contos literários e venceu os prêmios Off-Flip, em 2021, e Mario Quintana, em 2023.
“O estrangeiro” por Luciana Saddi
Argel, 1938. A trama apresenta Meursault, interpretado por Benjamin Voisin, que acompanha o funeral da mãe sem demonstrar qualquer sentimento. No dia seguinte, vai à praia, inicia uma relação amorosa e assiste a uma comédia no cinema. A perda, o encontro amoroso e a diversão aparecem lado a lado, sem hierarquia, como expressão da própria lógica emocional do personagem: nada parece adquirir um valor particular. O alheamento e a frieza marcam esse homem enigmático, que leva a vida aparentemente sem abalos emocionais, até que se envolve nos conflitos de um vizinho e assassina um homem numa praia, sob um sol impiedoso. Em O estrangeiro, o diretor François Ozon adapta o romance de Albert Camus e nos confronta com um personagem cuja aparente indiferença perturba tanto quanto seu crime.
Para Camus, o absurdo nasce do confronto entre a necessidade humana de sentido e um mundo que não responde a essa necessidade: diz respeito à condição humana. Já o psicanalista se interroga: a falta de sentido na vida se expressaria em atos sem sentido? Que sofrimento psíquico se manifesta na aparente ausência de sentimentos ou na impossibilidade de reconhecer e expressar os próprios afetos? Na clínica, certas experiências de vazio e anestesia psíquica nos fazem pensar se a dor provocada no corpo por alguns pacientes que se cortam e se machucam não seria uma tentativa desesperada de sentir algo. Transgredir os limites morais poderia também constituir uma busca por fortes emoções? O enigma de Meursault abre questões sobre as relações entre o corpo, os afetos e o ato: o que acontece quando uma experiência não encontra sentido?
No tribunal, a ausência de lágrimas no enterro da mãe passa a pesar como prova de sua monstruosidade. Julga-se também sua recusa em demonstrar os sentimentos que se esperam de um filho, de um amante, de um homem. Na Argélia colonial, a vida do árabe assassinado ocupa menos espaço do que o comportamento de quem o matou. Entre a opacidade de Meursault e a exigência social de explicar e ordenar os afetos, o filme nos interroga sobre aquilo que reconhecemos como humano — e sobre quem permanece fora desse reconhecimento. O romance foi publicado em 1942, numa Europa em que os campos de concentração e de extermínio tornavam concreta uma das formas mais brutais de desumanização da modernidade. A exigência de sentimentos socialmente reconhecíveis podia coexistir com a mais radical indiferença ao sofrimento do outro.




