MIS

Museu da Imagem e do Som

Nascida em Curitiba e radicada em Florianópolis, a artista multimídia Ruchita inaugura a exposição “Território de passagem” – sua primeira individual na capital paulista. A mostra, que inclui o lançamento do livro “Todo momento de achar é um perder-se a si própria” e uma série de ativações, foi concebida especialmente para o MIS e apresenta oito obras produzidas entre 2017 e 2025. São videoartes e séries fotográficas que investigam as relações entre corpo, tempo e memória.  

Com curadoria de Brunno Almeida Maia e direção de arte e expografia de Leandro Leão, a individual reafirma a proposta de levar ao público a linguagem da videoarte, articulando elementos performáticos, audiovisuais e fotográficos em uma proposta imersiva e não linear. A exposição inédita estabelece, ainda, um diálogo direto com o acervo de videoarte do MIS, referência nacional e na América Latina, com mais de 5 mil títulos produzidos e catalogados desde os anos 1970. Ao inserir a produção de Ruchita nesse contexto histórico, “Território de passagem” aproxima a pesquisa e a produção da artista a uma tradição experimental marcada por nomes como Walter Zanini, Letícia Parente, Hélio Oiticica, Lygia Pape e Arthur Omar. 

Partindo de experiências pessoais traduzidas em performances para a câmera, Ruchita coloca seu próprio corpo como campo de experimentação artística e desenvolve trabalhos em fotografia, instalação e vídeo que evidenciam a transitoriedade entre retrato e autorretrato. Em “Território de passagem”, suas investigações são atravessadas por questões existenciais, psicológicas e simbólicas, articulando aspectos íntimos e coletivos da experiência humana.  

Estruturada a partir de dois eixos curatoriais – “O Corpo Inacabado” e “O Corpo é Tempo” –, a exposição reúne obras que abordam temas como vulnerabilidade, transcendência, repetição, impermanência e dissolução. No primeiro eixo, a série “Não sou finito” (2018) documenta a ação performática de uma videoinstalação em duas telas que flagram o corpo da artista amarrado a uma árvore – representando amarras sociais e mentais – e a tentativa de alcançar o infinito puxando uma corda suspensa, gesto repetitivo que aproxima o corpo do intangível.  

Já a série inédita “Alternar-se (2025/2026) mergulha na experiência de convívio diário da artista com o diabetes. Utilizando mel e sangue como metáforas, Ruchita compõe um ensaio visual e sonoro que explora os altos e baixos de seu cotidiano. Em “Limiares”, a artista escreve com sangue sobre espelho um gráfico de oscilações de taxas de glicemia; em “Compasso”, um lenço vermelho traduz essa inconstância; em “Abismo”, o reflexo em uma poça de mel evoca uma dor corporalizada; em “Um corpo que me rodeia”, o mel escorre pelo corpo de Ruchita, evidenciando movimentos que escapam de nosso controle e nos atravessam.  

As 23 fotografias de “Des-continuum – registros de sangue e mel sobre papel, expostas sem moldura – rompem limites físicos e simbólicos. A obra “Um estado claro de ambiguidade” (2017-2018) completa o primeiro eixo da exposição. Nela, doze pessoas têm a visão obliterada por um espelho que reflete os olhos da artista. Ao lado da tela de exibição do vídeo, um autorretrato impresso de Ruchita é fixado diretamente sobre a parede, contendo o mesmo pedaço de espelho colado que sobrepõe seu olhar. Assim, os olhos do espectador estarão refletidos no lugar dos olhos da artista – uma reflexão sobre retrato, autorretrato, alteridade e um convite a se conectar à experiência do outro.  

No segundo eixo, “O Corpo é Tempo”, a série “Face à impermanência” investiga duração e efemeridade em diálogo com a cultura japonesa do Wabi-Sabi (que defende que nada é acabado, permanente ou perfeito). O tríptico é composto de duas obras audiovisuais e uma instalação fotográfica. Em “Esse movimento perpétuo” (2018), uma videoinstalação registrada na praia de Naoshima e projetada sobre areia real depositada no chão exibe a imagem da artista, que surge e desaparece em sintonia com algas que se decompõem, simbolizando a fusão do indivíduo na natureza e o ciclo eterno de decomposição e reintegração. Já em Estar sem estar” (2018), Ruchita permanece imóvel por horas no cruzamento de Shibuya, em Tóquio, enquanto a multidão passa em ritmo frenético – projetado em loop, o vídeo, de 8’09” e dimensões variáveis, foi filmado em câmera lenta para acentuar o paradoxo entre contemplação zen e velocidade urbana, um choque que também ecoa no cotidiano da metrópole paulistana.  

Trajetos livres de visitação  

A expografia de “Território de passagem” foi concebida para evitar percursos lineares e estimular diferentes possibilidades de circulação do público. A partir de um prisma central e de planos inclinados que redesenham a espacialidade da Sala Maureen Bisilliat, o projeto assinado por Leandro Leão propõe uma experiência de deriva, aproximando corpo, imagem, som e arquitetura. Ao invés de uma sequência fixa de leitura, a exposição convida o visitante a construir seu próprio trajeto. 

Além da exposição, “Território de passagem” contará com uma programação de ativações que inclui um bate-papo sobre videoarte contemporânea com Ruchita, o curador Brunno Almeida Maia e a videoartista e pesquisadora Márcia Beatriz Granero. O programa contempla ainda: visitas mediadas; oficina de experimentações em videoarte; ações de registro audiovisual para o acervo institucional do MIS; e o lançamento de “Todo momento de achar é um perder-se a si própria”, livro que compila a produção da artista entre 2017 e 2025. 

Sobre a artista

Artista multimídia nascida em Curitiba (PR, 1979), Ruchita cria obras que abrangem fotografia, instalações, vídeos e performances. Atualmente, vive e trabalha em Florianópolis (SC). Ao longo de sua trajetória, morou, estudou e trabalhou em Santiago (Chile), Bogotá (Colômbia), San Diego (California, EUA), Miami (Flórida, EUA) e Rio de Janeiro (Brasil). Graduou-se em Comunicação Audiovisual no International Fine Arts College de Miami. Inaugurou, em 2024, a exposição individual “Estou/Sou”, no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro. Apresentou, em 2023, a individual “Face à Impermanência”, no Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS/SC). Entre 2019 e 2020, integrou as mostras coletivas “Le delicate storie dell’arte del cambiamento”, na PaviArt, em Pavia, Itália, e “Deus Ex Terra”, no Contemporary Art Observatorium, em Lavagna, Itália. Suas obras foram expostas também no Labora Photo Prix Madrid. Expôs na semana da ARCO na HYBRID – International fair for emerging Art, em Madri, e posteriormente na JustLX- Lisboa Contemporary Art Fairno Museu da Carris, Lisboa. Realizou doze exposições individuais em Santa Catarina entre 2017 e 2025. Participou, ainda, de cinco coletivas no Brasil, quatro exposições no exterior e 27 festivais internacionais, com premiação em nove deles.  

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